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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O Horrível Dilema dos Intérpretes de Conferência. Dicas para sobrevivência em cabines de "tradução simultânea"







Frequentemente me perguntam o que se precisa para ser intérprete de conferências. Calmamente eu olho para a pessoa que avidamente deseja ser eu, amanhã. E digo.

Fácil. Primeiro volte no tempo e leia Don Quijote no original aos 11 anos de idade. Depois, enamore-se do idioma espanhol. Logo, aos 17, vá para a Espanha estudar Filologia durante 5 anos e, se possível, faça um Master em Linguística Aplicada. Depois, ao voltar aos trópicos, rale o couro como professor em escolinhas de idiomas e, por fim, abra a sua própria escola devidamente consolidado como linguista. Então, depois de 12 anos lecionando a gregos, troianos e persas, tenha a sorte de ter a vocação reconhecida e ser convidado para um test-drive linguístico dentro de uma cabine com evento em pleno curso. Aí, se os deuses lhe reservarem tal sorte, você pode começar a cogitar ser intérprete de conferências.

Bem sabido é que, muitos e muitas, dormem com o inimigo. No caso dos intérpretes de conferências ( que o populacho nomeia tradutores simultâneos), a convivência com o inimigo não dá-se ( opa! ) na alcova, mas sim dentro das cabines de interpretação.

Salvo raríssimos casos, trabalhamos, os intérpretes, em duplas. Durante a realização dos eventos que demandam tradutores ( nosso dinheiro é oriundo das massas ignaras em termos linguísticos) cada intérprete do mesmo idioma faz blocos alternados de tradução oral, variando entre 15 minutos ( temas mais complexos e esgotantes) e 1 hora ( temas chinfrins e sossegados, convenções de salvadores de Focas ou encontros bienais de Onanistas Anônimos).

Bom.

Dito isso, em suma, o intérprete trabalha com quem, mais das vezes, concorre com ele diretamente. As empresas contratantes não querem saber se um intérprete odeia visceralmente o outro, se há afinidade odorística entre eles ou se a capacidade linguística de ambos é similar.

Isso faz com que muitas vezes seu companheiro ou companheira de cabine seja aquele pequeno déspota que não lhe apraz ou aquela senhorita vagabunda que não mereceria vaga nem em prostíbulo de cais de porto, por intragável.

Mas, no fim das contas, qual é a arte da interpretação? O que nos resume funcionalmente?

Ser intérprete é dominar com maestria a arte de ser fundamental, sendo invisível.

Normalmente trabalhamos confinados em uma cabine sem ventilação, a prova de som.

Se o outro intérprete lhe ataca a jugular ou lhe mete uma adaga na femural, ninguém ouvirá seus gritos, a não ser que o seu microfone esteja ligado.

Como tenho amigos e amigas que são, como eu, intérpretes, a eles ofereço a seguinte lista de dicas de sobrevivência em cabines pouco amistosas:


1- Se você vai trabalhar com quem odeia, concentre-se nos palestrantes do evento e nos coffees-breaks. os palestrantes costumam ser divertidos por excelentes ou por horrendos, e os coffes-breaks existem para travestir o que é convivência insuportável na cabine em fome conveniente nos intervalos.

2- Jamais exagere no perfume ou no desodorante. Intérpretes inimigos falarão mal de você por qualquer pretexto. Que ao menos não falem de seu sovaco ou das náuseas que você provoca neles com aquele perfume predileto.

3- Seja forçosamente simpático, mesmo que isso lhe custe boas doses de cinismo profissional. A diplomacia é uma das bóias de sobrevivência nesta selva egolátrica.

4- Nunca jamais em hipótese alguma fale mal de uma terceira pessoa dentro da cabine. Seus microfones podem estar abertos e a platéia pode ser testemunha geral.

5- Se, mesmo depois de todo este esforço, o intérprete inimigo não colaborar com você, use o último artifício cabal que lhe resta: em seu momento de pausa, peide dentro da cabine, saia e feche a porta.

Terá a grata satisfação de saber que pela próxima meia hora seu inimigo sorverá seus gases como um pobre soldado entrincheirado na primeira guerra mundial, sem escapatória possível.

Afinal, se não há soluções fáceis para ódios mútuos que ao menos sejam ódios legitimados pela prática cotidiana de um bom profissional.



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