segunda-feira, 13 de abril de 2009

Baila tudo dela

na fila de espera

dos olhos que me ardem;

passa o tempo, morre o dia,
vão-se horas, mordo-me o pulso,

é na falta que meu afago acampa.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Se você fecha pra balanço, quem vai entrar pra balançar você?

sábado, 7 de março de 2009

O MANIFESTO HIPERCÍNICO



Burilado ao longo de anos e ânus de leituras variadas, conjecturas, exercícios filosóficos, momentos autofágicos e em dias nublados, temos, por fim, o manifesto hipercínico. O grande compêndio dos poucos sobreviventes do livre-pensamento, o testamento raríssimo da inteligência plasmada na blogosfera, tão habitada por canalhas de plantão e quadrúpedes bipedários.

Aqui lhes brindo com uma amostra daquilo que ainda será.

MANIFESTO HIPERCÍNICO

Franz Ketrupp

Ao lançarmos o Movimento Hipercínico de BH (podia ser Beverly Hills, mas é só Belo Horizonte mesmo) para o mundo, estabelecemos aqui, solenemente – ou não – nosso Manifesto Hipercínico, nossa Carta de Princípios Hipercínicos e nossa lista de Enunciados ou Proposições Hipercínicas – esta última ainda aberta a contribuições:

Aqueles um pouco mais letrados irão reconhecer facilmente nos enunciados seguintes alguns empréstimos, referências, contribuições involuntárias (também conhecidas como plágio) e citações mais ou menos literais de Nietzsche, Heidegger, Descartes, Derrida, Shakespeare, Garfield e outros potenciais hipercínicos que estão sendo aqui – à maneira dos Mórmons – recuperados postumamente pelo e para o Movimento Hipercínico.

Os menos letrados não devem perder tempo lendo o que se segue.

É de máxima importância começarmos por esclarecer que o Movimento Hipercínico despreza os seguidores de qualquer movimento. Sendo assim, caso chegue a conquistar a adesão de mais de seis seguidores, o Movimento Hipercínico irá se autodissolver imediatamente, pois nada que interesse a mais de meia dúzia de pessoas poderá jamais interessar ao hipercínico. Portanto, o eventual e improvável sucesso do Movimento Hipercínico será causa cabal e definitiva de seu fracasso e terminação.

CARTA DE PRINCÍPIOS HIPERCÍNICOS

Princípio 1º:

Nunca acredite em nada.

Princípio 2º:

Por coerência (se é que isso é importante para alguém além de um intelectual de esquerda) com o Princípio 1º, não leve a sério o Princípio 1º.

Princípio 3º:

Não há verdades, apenas perspectivas.

Princípio 4º:

Contradiga o Princípio 3º elaborando a sua própria lista de verdades indiscutíveis. Comece com algo como: “A burrice existe, e muitas vezes é letal”.

Princípio 5º:

Para qualquer afirmação, é mais importante que ela seja bela do que verdadeira.

Princípio 6º:

Só o que é belo é verdadeiro.

Princípio 7º:

Só para espezinhar o Princípio 6º, faça sua própria lista de horríveis verdades.

Princípio 8º:

Retorne ao Princípio 3º.

Princípio 9º:

Penso, logo penso que existo. Mas não tenho certeza.

Princípio 10º:

Não é importante ter certezas.

Princípio 11º:

Há dúvidas quanto à veracidade do Princípio 10º.

Princípio 12º:

Toda ação é inútil, mas é melhor que os outros não saibam disso.

Princípio 13º:

Em bom Português, ser ou não ser é uma mera questão de estar ou não estar.

Princípio 14º:

Nada garante que é melhor existir alguma coisa do que nada.

Princípio 15º:

Não temos garantias de que o Princípio 14º seja procedente.

Princípio 16º:

Todo conjunto coerente de idéias é uma prisão para o espírito livre.

Princípio 17º:

OVNIs e espíritos livres não existem.

Princípio 18º:

Quanto mais uma argumentação soa convincente, mais ela tem chances de estar errada.

Princípio 19º:

Nada mais perigoso do que alguém que acha que está certo.

Princípio 20º:

Por precaução, não esteja certo quanto ao Princípio 19º.

Princípio 21º:

A convicção sempre se baseia na falta de informação.

Princípio 22º:

Não temos informações suficientes para corroborar o Princípio 21º.

PROPOSIÇÕES HIPERCÍNICAS

  1. O Movimento Hipercínico acredita que a vida surgiu por mero acaso, e o Homem por mero azar.

  1. Para o hipercínico, a Eternidade já seria por si só um inferno.

  1. Ao contrário de seu ilustre precursor da Antiguidade, o cínico Diógenes, que com sua lanterna acesa procurava em plena luz do dia o Homem honesto, o hipercínico moderno prefere tatear às cegas no escuro em busca da mulher – que nem muito honesta precisa ser.

  1. O hipercínico veste a carapuça e admite que todos os homens são iguais. Mas justifica tal fraqueza dizendo que, já entre as mulheres, algumas são muito melhores que as outras.

  1. Para o hipercínico, não há como traçar uma linha divisória clara entre a auto-estima e a falta de autocrítica.

  1. Cultura inútil também é cultura.

  1. Toda cultura é inútil. Já pregos e martelos são muito úteis.

  1. Cultura é coisa para ignorante.

  1. Ao contrário do jovem e dinâmico executivo, que é cheio de planos e projetos, e movido a desafios, o hipercínico é inativo por natureza, e mantém a mente vazia enquanto percorre com o olhar perdido a imensidão do cosmos... Mas os resultados a longo prazo são os mesmos.

  1. Só existe sexo pago. O casamento é uma espécie de financiamento a longo prazo.

  1. Não existem restrições éticas ao sexo mutuamente consentido entre adultos; somente restrições estéticas.

  1. O abismo existencial entre duas individualidades só é transponível (e mesmo assim apenas simbolicamente) se uma das individualidades comer a outra, ou vice-versa.

  1. A vida é o que a gente faz para passar o tempo enquanto espera a próxima trepada.

  1. Para o pobre, ônibus lotado já é orgia.

  1. Não existe tal coisa como sexo na 3ª idade. Aliás, a rigor, não deveria existir terceira idade – se por mais não fosse, já pela estupidez da expressão.

  1. O hipercínico não entende por que a longevidade é tomada como índice de qualidade de vida.

  1. Viver pode arruinar a sua saúde.

  1. A vida é uma condição patológica sexualmente transmissível e fatal em 100% dos casos.

  1. Quando está tudo bem, a vida é apenas chata. Mas tragédias sempre podem acontecer.

  1. Nenhuma situação é tão ruim que não possa piorar.

  1. A esperança do hipercínico é que a morte o leve antes que algo de ruim aconteça.

  1. A esperança é a última que morre. A gente morre antes.

  1. A vida social é uma espécie de trabalho não remunerado.

  1. O egoísta é um sujeito que não pensa em mim.

  1. O pior cego é aquele que faz força para enxergar.

  1. O corajoso é um sujeito sem noção de perigo.

  1. A experiência é aquilo que nos permite reconhecer um erro toda vez que o cometemos novamente.

  1. O ‘homo ideologicus’ é uma involução do ‘homo sapiens’.

  1. A direita é o mal ocupando o lugar do mal. A esquerda é o mal ocupando o lugar do bem.

  1. A essência do poder está em se colocar no lugar de concedê-lo, e não na posição de reivindicá-lo ou disputá-lo.

  1. O marxismo é uma doença do intelecto.

  1. O marxismo era o ópio dos intelectuais, que agora preferem o verde.

  1. A política é um espetáculo de má qualidade dirigido ao vulgo, e apenas o vulgo por ela se deixa atrair.

  1. A maior vantagem de ser um político é que o sujeito já não corre mais o risco de morrer antes da hora.

  1. O único poder a que o hipercínico aspira é o da sedução. Mas, para seu azar, não há nada mais sedutor do que poder, fama e dinheiro.

  1. Não é que as pessoas tenham ou construam seu próprio conjunto de opiniões. Elas são, ao contrário, "capturadas" por conjuntos de opiniões autoreplicantes gerados pela linguagem - máquina de produzir discursos que, uma vez criados, saem à procura de uma cabeça onde habitar.

  1. O inferno são os outros. Todos os outros.

  1. Devia existir um inferno só para quem acredita nele.

  1. Se Deus existisse mesmo, ele já teria feito há muito tempo um 'recall' da Criação, dados os evidentes defeitos de design.

  1. Como destino turístico, o Vaticano é de longe o favorito do hipercínico, por ser o único museu do mundo em que as múmias andam e falam.

  1. Acontecem infinitamente mais abortos espontâneos do que provocados. Donde se conclui que a Natureza é o maior abortivo que existe. A quem o Papa deveria culpar por isso?

  1. A fé é a capacidade humana de acreditar em algo mesmo sabendo que não é verdade.

  1. Não existe gratidão. Ninguém gosta de ficar devendo nada a ninguém, muito menos gratidão.

  1. O que seria da ingratidão se não fossem os ingratos? O grande drama humano ficaria privado de um de seus elementos centrais.

  1. O conhecimento é sempre limitado. Já a ignorância é infinita.

  1. Não há título acadêmico capaz de impedir que um imbecil o continue sendo.

  1. O poliglota é o sujeito capaz de falar a mesma bobagem em várias línguas.

  1. Se você se acha um gênio, tem 99% de chance de estar enganado. O 1% restante está na margem de erro.

  1. O Movimento Hipercínico é estritamente ateu. Mas paganismo pode. Especialmente na forma de ritos sacrificiais coletivos em louvor a Eros e Vênus, com ampla participação de bacantes em êxtase.

  1. Os hipercínicos acreditam que a melhor maneira de preservar a natureza é deixar tudo se deteriorar a ponto de tornar impossível a vida humana sobre a Terra. O Planeta ficará bem melhor sem nós.

  1. Por tipicamente não fazer nada, o hipercínico está moralmente muito acima da média da humanidade, que se dedica ativamente a infernizar a vida uns dos outros.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A violência dos religiosos



É estapafúrdia e absurda a violência daqueles que tem religião. Não bastasse a sangrenta história das religiões no mundo, eles não aceitam a racionalidade de sujeitos materialistas concretos. O Prof. Dráuzio Varella, exímio cientista, é ateu. 

Ele é acusado e caluniado em inúmeros e-mails ofensivos pelo simples fato de não acreditar em seres imaginários organizados hierarquicamente em um ridículo arranjo delirante.

Um argumento racional básico consegue derrubar toda a estrutura religiosa existente. Toda. Por isso se repete aquele absurdo argumento fascistóide de que " religião não se discute". Claro, pois se discutíssemos religião, não sobraria nenhuma para ser testemunha da iluminação racional.

Em termos de probabilidades, o deus bíblico e as fadas de Cinderela são seres equivalentes. Com a diferença evidente de que as fadas de Cinderela nunca jamais sacanearam egípcios, nem mataram criancinhas nem afogaram a humanidade com algum dilúvio sádico.

Blasfemo é quem condena a racionalidade e nosso direito a usar a inteligência humana racional. Heresia é sustentar absurdos imaginários e defender a histeria desesperada do fundamentalismo em nome de um ser supostamente todo-poderoso, que, aliás, não é visto desde que inventamos os meios audiovisuais.

Deus saiu de férias na Segunda Guerra Mundial justamente quando o povo escolhido dele se ferrava.

Pois é. Antes de condenar os ateus, você, qua ainda tem a necessidade de crer em algo, seja justo: você também é ateu em relação aos deuses hindus ou às entidades do candomblé. Você é ateu com relação a todo ente imaginário que não seja o seu deus bíblico incutido. Você, crente, dá mais crédito a uma historinha montada em cima do sadismo, do racismo, da homofobia e da aniquilação da inteligência do que ao simples racionalismo inteligível. 

Você faz do seu desespero por saber que morrerá um delírio esdrúxulo para ludibriar a morte.

Portanto, você, que crê em deus ou em deuses, faça um exercício de respeito às diferenças. Não é porque seu deus imaginário não tolera as alegrias humanas que você também precisa condenar quem é feliz por não ser escravo moral de um livro absurdo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

poemasmeusk

vem como fogo ao
inflamável,
anunciação concreta
do furor de mil verões,
minha toda espera
eleva-se;
ela traz nos olhos
dois abismos de brilhar-nos,
esferas do eu no espelho,
círculos perfeitos do futuro;
o amor há
na imprudência consentida:
antes de tocá-la
já a compunha em linhas.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009



Onde reina a miséria, a ignorância e a desesperança, Lula e deus são campeões do Ibope.


Mas...e se o senhor, que é ateu, estiver errado?


Clique na pergunta e veja a resposta brilhante.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

poemasmeus8855



teu refúgio nas montanhas,
meu abismo de abraço,
meu teu céu imenso aberto,
nossas bocas de horizonte,
toda a falta no espaço,
teu cansaço doce,
nossas únicas noites simples;

brindo por tudo de ti,
por cada passo não dado,
pelo peso abortado
do cotidiano infeliz;

conviver é poço cavado;

vivamos o beijo revolucionário:
teu oco em minha boca
é teu beijo eterno diário.


domingo, 25 de janeiro de 2009




a la vera,
a la vera,
colgada por encima de azules,
como si el mismo cielo
se hubiera reposado en el agua,

a la vera,
a la vera,
miles de serpientes al revés,
alegres culebrones de tinta
besándose cada esquina,

a la vera,
a la vera,
zumo de montaña
sazonado de sal y brisa plata,
amante polar de un sol que se escapa,
aqui perderse es hallarse
a la vera,
a la vera
del hondo boquerrón
de mañanas posibles,
de letras masticadas en versos
parideros, alfabeto de luces,
olas en cadenas de silencios;

mi corazón va como ballena
por mi pecho,
enorme, exagerado de óperas,
lento pero fuerte,
pleno pleno
de valparaísos que me dibujo
cada chile que me encuentro
en cada ojo de cada estrella.




o mar e mil colinas
de cores gotejantes
até muito céu,
o mar do avesso,

valparaíso tem
constelações terrenais,

quero mais a casa
não do poeta,
mas saber dos vizinhos de lá
o que deixou de escrever-se,

é maravilhosamente moribunda,
indecentemente curvilínea,
e reduz viña a uma quase
miami devassada,

debruçada sobre todas as coisas,
100 mil olhos em diagonal,valparaíso
é como amor por mulher fugidia:

perder-se nela
é morrer-se
docemente
abraçado pelo dia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Mendoza, vinhos, calor e argentinos.


Depois de cruzar os Andes a bordo de um bus durante sete horas ( a fronteira Chile-Argentina é uma amostra da burrocracia) chegamos a Mendoza. Parece um oásis no meio de um deserto salpicado por vinhedos. Bonita a cidade? Sim, muitos parques e amplas áreas para pedestres,mas bem mais sujinha que Santiago.

Para complicar as coisas e inflacionar os preços, a quantidade de turistas europeus é enorme. Isso faz com que um jantarzinho para dois saia pelo menos por uns 70 pesos, com bebida. jantarzinho inho mesmo, em lugares meia boca.

O calor é violento. E, sim, aqui se roubam turistas, mas nada demais. Brasileiro já vem vacinado de casa.

Os motoristas sao afoitos e grosseiros, em geral. Cuidado dobrado ao atravessar as ruas.

Rapidamente começo a ter saudades do Chile.

O Chile, aliás, é outro babado.

Resumindo bastante, Mendoza é uma cidade legalzinha. A populaçao é mais conservadora e ter tatuagens aqui ainda causa espanto. Desconfio que o número de senhoritas que ainda acha que o hímem é selo de garantia de caráter, aqui, abunda.

Devem vender vibradores pacas.

Muita Igreja e terço no cotidiano das coisas. Opus Dei é dono de meia cidade.

Mas o vinho é muito bom e estamos no lucro.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Chile, primeiro mundo na América Latina

Eles conseguiram. Mesmo. Estou há 5 dias em Santiago do Chile e vejo o que vi em Madrid: organização, limpeza e mais igualdade social que jamais tinha visto antes em nosso continente.

A riqueza aqui é do coletivo, a pobreza existe mas tem certa dignidade e a soberbia particular é rara.

São 6 milhões de habitantes em Santiago, mas as ruas não são entupidas de transeuntes. O metrô funciona como relógio. Limpíssimo, pontual.

A comida é um pouco sem graça, mas logo entendi: por lei nacional, colocar excesso de sal ou tempero afeta a pressão arterial da população, portanto, coloque o sal à mesa, quem queira.

Mesmo no verão, a vista dos Andes nevados na capital chilena é absurdamente deslumbrante.

O vinho é divino. O céu é de cinema, o sol é diferente. Pessoas, muitas, lendo sempre em todos os lugares.

Viña del Mar tem brisa de ar-c0ndicionado. Um metro quadrado do Chile tem mais vergonha na cara que um hectar de solo brasileiro sem vergonha.

Ser malandro aqui, não é legal. Não se aplaude a filhadaputagem. Não se elevam odes aos idiotas populistas.

Luis Inácio jamais seria eleito vereador em Santiago.

O Chile está 122 anos à frente do Brasil.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Desde Santiago e Mendoza

Queridos e queridas pessoas leitoras, vou-me ao Chile e Argentina por uns tempos.


Preciso dos vinhos de lá.


Vou postando as peripécias das andanças andinas. E colocando os dedos em várias feridas também.

Assim, pois, de lá surgirem em linhas emaranhadas de uvas, sal, sol e pedras.

Aguardem.

sábado, 20 de dezembro de 2008

frases soltas 3554

O casamento garante apenas que você acredita no improvável.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Falácia Inaciana

Cito a Folha de S. Paulo de hoje.


16/12/2008 - 08h33

Inflação pelo IGP-10 fecha o ano em 10,27%, maior desde 2004, diz FGV

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da Folha Online

O IGP-10 (Índice Geral de Preços - 10) teve ligeira variação positiva de 0,03%, em dezembro, uma desaceleração acentuada em relação a novembro, quando a alta foi de 0,73%. No ano, o indicador teve variação positiva de 10,27%. Os dados foram divulgados nesta terça-feira pela FGV (Fundação Getulio Vargas). O resultado no ano atinge, assim, a maior marca desde 2004, quando a alta foi de 12,4%. No ano passado, o índice acumulou alta de 7,38%.


Pois é.

E neste país de população majoritária estúpida, o rei da hipocrisia aumenta sua popularidade.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A Evidência que não Há

A Evidência, hoje, é dificílima. A poesia não é convidada ao BBB. Grandes obras de antes são Grandes Sobras dos dias. Publica-se qualquer coisa, menos o mais raro e fino suprasumo literário, este sim, destilado diminutamente por já consagrados autores. O desconhecido genial vale menos que a celebridade midiática imbecil.

Formam-se os guetos da salvação.

Mas não publicam-se tiragens de 15 ou 20 exemplares. A não ser que provemos: somos rentáveis. Nós quem? Os poucos que escrevemos para menos pessoas ainda.

Minas Gerais é onde se nasce já fadado ao exílio. Mas exilar-se noutro mesmo Brasil é punição em dobro. Sentir saudade da terra é ruim, mas menos pior noutra terra menos triste.

O Brasil é falsamente alegre. E nossa alegria é nossa desgraça maior.

Carnaval, carnaval. E os batuques lavam almas e memórias.

Sou um francoatirador. Quem me publique que arque com as custas advocatícias. Serão ordas de medianos a me processar e multidões de seres carnavalescos, furibundas, a tentar provar-me o racismo incontido e a burguesança do meu gênio.

Queria mesmo era viver soba a asa de Olavo de Carvalho, considerando mecenatos, lá longe na Toscana, onde poucas coisas encheriam minha rasa paciência.

O coração do poeta tem mesmo que perambular. Se der, o corpo vai junto.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Cartola por bulerías



late, otra vez
de esperanzas, mi corazón

yo te quiero a ti,
tú a mí, no
enfin...

vuelvo al jardín
muy seguro que debo llorar
pues yo sé que no quieres
estar para mí;

hablo con rosas,
que bobada, las rosas no hablan
simplesmente las rosas
exhalan
el perfume que roban de ti

Ay,ay,ay...

Quise venir
Para ver en tus ojos castaños
Todas las ilusiones de antaño
Por fin.

Es negro por darle luz al alma




soy toro y flamenco,
negra mi ropa
de luces mi pensamiento,

toro y flamenco,
flota mi aire
el compás de sentimientos,

toro y flamenco
luna del albaycín,

mi amada es mi alhambra
por brillarme dentro
en mí.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O Horrível Dilema dos Intérpretes de Conferência. Dicas para sobrevivência em cabines de "tradução simultânea"







Frequentemente me perguntam o que se precisa para ser intérprete de conferências. Calmamente eu olho para a pessoa que avidamente deseja ser eu, amanhã. E digo.

Fácil. Primeiro volte no tempo e leia Don Quijote no original aos 11 anos de idade. Depois, enamore-se do idioma espanhol. Logo, aos 17, vá para a Espanha estudar Filologia durante 5 anos e, se possível, faça um Master em Linguística Aplicada. Depois, ao voltar aos trópicos, rale o couro como professor em escolinhas de idiomas e, por fim, abra a sua própria escola devidamente consolidado como linguista. Então, depois de 12 anos lecionando a gregos, troianos e persas, tenha a sorte de ter a vocação reconhecida e ser convidado para um test-drive linguístico dentro de uma cabine com evento em pleno curso. Aí, se os deuses lhe reservarem tal sorte, você pode começar a cogitar ser intérprete de conferências.

Bem sabido é que, muitos e muitas, dormem com o inimigo. No caso dos intérpretes de conferências ( que o populacho nomeia tradutores simultâneos), a convivência com o inimigo não dá-se ( opa! ) na alcova, mas sim dentro das cabines de interpretação.

Salvo raríssimos casos, trabalhamos, os intérpretes, em duplas. Durante a realização dos eventos que demandam tradutores ( nosso dinheiro é oriundo das massas ignaras em termos linguísticos) cada intérprete do mesmo idioma faz blocos alternados de tradução oral, variando entre 15 minutos ( temas mais complexos e esgotantes) e 1 hora ( temas chinfrins e sossegados, convenções de salvadores de Focas ou encontros bienais de Onanistas Anônimos).

Bom.

Dito isso, em suma, o intérprete trabalha com quem, mais das vezes, concorre com ele diretamente. As empresas contratantes não querem saber se um intérprete odeia visceralmente o outro, se há afinidade odorística entre eles ou se a capacidade linguística de ambos é similar.

Isso faz com que muitas vezes seu companheiro ou companheira de cabine seja aquele pequeno déspota que não lhe apraz ou aquela senhorita vagabunda que não mereceria vaga nem em prostíbulo de cais de porto, por intragável.

Mas, no fim das contas, qual é a arte da interpretação? O que nos resume funcionalmente?

Ser intérprete é dominar com maestria a arte de ser fundamental, sendo invisível.

Normalmente trabalhamos confinados em uma cabine sem ventilação, a prova de som.

Se o outro intérprete lhe ataca a jugular ou lhe mete uma adaga na femural, ninguém ouvirá seus gritos, a não ser que o seu microfone esteja ligado.

Como tenho amigos e amigas que são, como eu, intérpretes, a eles ofereço a seguinte lista de dicas de sobrevivência em cabines pouco amistosas:


1- Se você vai trabalhar com quem odeia, concentre-se nos palestrantes do evento e nos coffees-breaks. os palestrantes costumam ser divertidos por excelentes ou por horrendos, e os coffes-breaks existem para travestir o que é convivência insuportável na cabine em fome conveniente nos intervalos.

2- Jamais exagere no perfume ou no desodorante. Intérpretes inimigos falarão mal de você por qualquer pretexto. Que ao menos não falem de seu sovaco ou das náuseas que você provoca neles com aquele perfume predileto.

3- Seja forçosamente simpático, mesmo que isso lhe custe boas doses de cinismo profissional. A diplomacia é uma das bóias de sobrevivência nesta selva egolátrica.

4- Nunca jamais em hipótese alguma fale mal de uma terceira pessoa dentro da cabine. Seus microfones podem estar abertos e a platéia pode ser testemunha geral.

5- Se, mesmo depois de todo este esforço, o intérprete inimigo não colaborar com você, use o último artifício cabal que lhe resta: em seu momento de pausa, peide dentro da cabine, saia e feche a porta.

Terá a grata satisfação de saber que pela próxima meia hora seu inimigo sorverá seus gases como um pobre soldado entrincheirado na primeira guerra mundial, sem escapatória possível.

Afinal, se não há soluções fáceis para ódios mútuos que ao menos sejam ódios legitimados pela prática cotidiana de um bom profissional.



terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Agradecimento



No mínimo um mimo o convite que foi-me feito para ser "diplomata voluntário" na cidade de Mendoza, Argentina. O grupo embarca para lá, via Santiago do Chile, em 2 de janeiro próximo. À Srta. Daniela, da Feneri, meus agradecimentos públicos. Prometo examinar com carinho a proposta e, caso eu possa de fato ir, aproveitar bastante as semanas na região vinícola andina.